Memória procedimental: o que o idoso sabe fazer mesmo quando esquece o resto?

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez 4 Min de leitura
Yuri Silva Portela

O Dr. Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, destaca que existe um tipo de memória que resiste ao envelhecimento com uma tenacidade que frequentemente surpreende familiares e profissionais de saúde. É por isso que o idoso que não lembra o que comeu no almoço ainda consegue tocar as músicas que aprendeu na juventude, ou aquele que confunde os nomes dos netos ainda tricota os pontos aprendidos há cinquenta anos. Essa dissociação não é acidental; é o resultado de como diferentes sistemas de memória estão organizados no cérebro e respondem de forma distinta ao envelhecimento.

Neste artigo, você vai entender como funciona a memória procedimental e por que ela é uma aliada terapêutica poderosa. Acompanhe.

O que é memória procedimental e por que ela sobrevive quando outras falham?

A memória humana não é um sistema único. É uma coleção de sistemas especializados que armazenam diferentes tipos de informação em diferentes estruturas cerebrais. A memória episódica, que guarda eventos específicos, declina mais precocemente nas demências. A memória procedimental, que guarda habilidades motoras e rotinas automatizadas, é a mais resiliente de todas por estar armazenada em estruturas cerebrais menos afetadas precocemente pelo Alzheimer.

Segundo o Dr. Yuri Silva Portela, isso explica por que um idoso com demência moderada ainda consegue andar de bicicleta, tocar piano ou seguir uma receita que preparou por décadas, mesmo sem conseguir lembrar o dia da semana. Dessa forma, essa dissociação tem implicações práticas enormes para o cuidado, pois abre espaço para intervenções que mantêm o idoso engajado e competente em domínios específicos que preservam sua identidade.

Como utilizar a memória procedimental no cuidado ao idoso?

A aplicação mais direta é a manutenção de rotinas. Isso porque o idoso com comprometimento cognitivo que segue uma rotina diária estruturada utiliza a memória procedimental para navegar pelo dia com muito menos confusão. Afinal, a sequência de acordar, higiene, café e atividade matinal não precisa ser lembrada conscientemente se já está automatizada há décadas.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Para Yuri Silva Portela, estimular atividades que o idoso sempre soube fazer preserva competência e autoestima simultaneamente. Isso ocorre porque o idoso que ainda consegue fazer algo bem mantém um senso de valor próprio que as perdas cognitivas ameaçam intensamente. Portanto, identificar essas habilidades preservadas e criar oportunidades para que sejam exercidas é uma intervenção terapêutica de alto impacto e baixo custo.

Como o Humaniza Sertão incorpora esse conhecimento nas orientações às famílias?

Nas ações do Humaniza Sertão nas comunidades do sertão de Quixadá, os neuropsicopedagogos e médicos voluntários orientam famílias sobre como identificar habilidades preservadas em idosos com comprometimento cognitivo e como integrá-las à rotina de cuidado de forma prática e sustentável.

Na perspectiva do fundador do projeto social Humaniza Sertão, o doutor Yuri Silva Portela, muitas famílias abandonam atividades do idoso com demência, achando que ele não tem mais condições de realizá-las. Frequentemente estão erradas sobre as limitações. A orientação sobre a memória procedimental transforma essa percepção e abre possibilidades de cuidado que enriquecem a experiência de todos os envolvidos.

O que o idoso ainda sabe fazer diz mais sobre ele do que o que esqueceu.

O doutor Yuri Silva Portela nota que olhar para as capacidades preservadas é tão importante quanto mapear as perdas. Descubra o que o idoso que você ama ainda faz bem. Esse conhecimento pode transformar completamente a forma como você cuida dele.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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