Por que a posse de celular entre crianças caiu pela primeira vez no Brasil

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez 6 Min de leitura
Por que a posse de celular entre crianças caiu pela primeira vez no BrasilPor que a posse de celular entre crianças caiu pela primeira vez no Brasil

Pnad Contínua do IBGE mostra recuo inédito entre crianças de 10 a 13 anos, puxado pela preocupação de pais com privacidade e segurança digital.

Depois de nove anos seguidos em alta, o percentual de crianças brasileiras de 10 a 13 anos que possuem celular caiu em 2025. É a primeira retração desde que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) começou a acompanhar esse indicador, em 2016, e o dado chama atenção justamente por ir na contramão do restante da população, que segue ampliando o acesso a aparelhos e à internet (fonte: Agência Brasil).

O levantamento faz parte do módulo de tecnologia da informação e comunicação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgado na quinta feira (2) pelo IBGE. Diante desse recuo, a pergunta que fica é: o que mudou no comportamento das famílias brasileiras para que, justamente entre as crianças, o uso do celular tenha começado a perder espaço?

Os números por trás da queda

Segundo a Pnad Contínua, 55,2% das crianças de 10 a 13 anos tinham celular em 2025, ante 56,7% no ano anterior, uma queda de 1,5 ponto percentual (fonte: Notícias ao Minuto Brasil). Entre os oito grupos de idade detalhados na pesquisa, essa faixa etária foi a única a apresentar variação negativa na posse do aparelho ao longo do último ano. Ainda assim, o patamar atual segue bem acima do registrado antes da pandemia: em 2019, apenas 46,8% das crianças dessa idade tinham telefone móvel, menos da metade do grupo.

O acesso à internet entre esse mesmo público também recuou, embora de forma mais discreta, passando de 84,9% para 84,4%. Segundo a Revista Fórum, o uso de redes sociais por estudantes do ensino fundamental caiu de 79,2% para 74% nas escolas públicas e de 80,1% para 73,5% nas escolas privadas entre 2022 e 2025, um sinal de que a mudança não se limita à posse do aparelho, mas alcança também a forma como as crianças usam as plataformas digitais no dia a dia. Enquanto isso, o restante da população seguiu na direção oposta: o uso de internet no Brasil como um todo avançou para 90,5% em 2025, puxado especialmente pelo crescimento entre idosos, que já soma 74,5% de usuários acima de 60 anos.

Privacidade e segurança lideram as justificativas das famílias

O motivo mais citado pelos responsáveis para não dar celular aos filhos hoje é a preocupação com privacidade e segurança digital, apontada por 32% das famílias entrevistadas. O dado chama atenção porque esse índice cresceu 7,8 pontos percentuais em relação a 2024 e praticamente dobrou desde 2022, quando o custo elevado do aparelho ainda era o principal fator que levava famílias a adiar a compra (fonte: O Capixaba).

Gustavo Fontes, analista do IBGE, relaciona essa mudança a um debate que ganhou força nos últimos anos sobre os riscos da exposição precoce de crianças ao ambiente digital. Segundo ele, a percepção das famílias sobre a segurança dos filhos nas redes sociais aumentou, e esse movimento coincide com a entrada em vigor de uma lei que restringe o uso de celulares dentro das escolas, sancionada em janeiro de 2025 (fonte: Notícias ao Minuto Brasil). Vale lembrar que, embora o custo do aparelho tenha perdido peso como justificativa central, a falta de necessidade prática ainda aparece entre os motivos citados pelas famílias que optam por adiar a compra do primeiro celular dos filhos.

O contraste com o avanço digital entre os mais velhos

Enquanto o acesso das crianças diminui, a população idosa segue no caminho inverso. Em 2025, 80,3% dos brasileiros com 60 anos ou mais tinham celular, contra 78,3% no ano anterior, alta de 2 pontos percentuais, a maior variação registrada entre os oito grupos etários analisados pela pesquisa (fonte: Rádio Sucesso FM). Na comparação com 2019, o crescimento chega a 13,6 pontos percentuais entre os idosos, reflexo direto da digitalização de serviços que antes dependiam de atendimento presencial.

Esse contraste ajuda a entender o momento atual da inclusão digital no Brasil: não se trata de um recuo geral no uso de tecnologia, mas de uma reorganização de prioridades dentro das famílias, com pais e responsáveis adotando critérios mais rígidos sobre quando e como os filhos devem ter acesso a um aparelho próprio. A pesquisa do IBGE também mostrou que, entre a população conectada em geral, o uso da internet para tarefas cotidianas segue crescendo: 74,2% dos usuários já acessam bancos pela internet e, pela primeira vez, mais da metade dos brasileiros conectados, 52,7%, afirma comprar ou contratar serviços on-line.

O recuo entre crianças de 10 a 13 anos pode ser pontual ou marcar o início de uma tendência mais duradoura, algo que só as próximas edições da pesquisa vão confirmar. Por enquanto, o dado reforça um movimento já perceptível em escolas e consultórios pediátricos: famílias brasileiras discutindo com mais atenção em que momento colocar um smartphone nas mãos dos filhos, e sob quais regras.

Fontes consultadas:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-07/proporcao-de-criancas-com-celular-cai-seguranca-e-motivo-mais-citado
https://www.noticiasaominuto.com.br/brasil/2395068/posse-de-celular-diminui-entre-criancas-pela-1-vez-e-cresce-entre-idosos-diz-ibge
https://ocapixaba.com.br/seguranca/2026/07/celular-perde-espaco-entre-criancas/
https://www.sucessofm.com/2026/07/02/pesquisa-do-ibge-mostra-avanco-da-internet-entre-idosos-e-recuo-entre-criancas
https://revistaforum.com.br/brasil/celular-e-internet-cai-entre-criancas-pela-primeira-vez-em-anos/

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